segunda-feira, 5 de abril de 2010

Amigo do tempo, amigo dos ventos

Amigo do tempo, amigo dos ventos

                                                                   Bira Malta

Como dizia aquela canção de um famoso cantor dos anos 70 “...eu quero ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar...”. Muitas vezes um milhão de amigos em listas online significa uns “gatos-pingados” que lhe escrevem vez ou outra ou mandam uma mensagem contando as novidades. Tem certas pessoas que quando se fala em levar uma hora viajando de carro ou trem até qualquer lugar para eles pode parecer estar indo para Sibéria. Longe é um lugar na sua mente, no seu desejo de rever, de falar, de comunicar-se efetivamente com os amigos (conhecidos). Algumas pessoas não gostam de ler e muito menos de enviar emails e às vezes nem apreciam Facebook ou MSN. Mas levam horas ao telefone (Skype) onde imagem e voz trazem-lhes a sensação de proximidade. O que sustenta uma amizade é segredo de séculos. Talvez respeito pelas diferenças, porque os pontos em comum são fáceis de se lidar. Ninguém é perfeito nem dono da verdade. Há ao meu ver quem socialize melhor ou com mais facilidade. Fazemos escolhas ao nosso bel prazer, fazemos escolhas que nos agradem, que se encaixem ao momento de vida. Há também os “amigos de ocasião” quando você pede certos “favores” na hora de viajar, tipo alguém para ficar com o seu animal de estimação. Outros hospedam-se na casa de “conhecidos dos conhecidos” para economizar uns centavos a mais. Nada de estranho ou condenável nesses atos e escolhas, mas daí a chamar os “conhecidos” de amigos ou seja lá o que for é ir mais longe, redefinindo e empobrecendo o significado da amizade. Existem amigos de verdade desde a infância, mas há aqueles também que entraram em nossas vidas a menos de 20 ou 10 anos por pura “coincidência”, coisas do destino; são pessoas com as quais nos identificamos, seja pelo modo de ser, agir, pensar; o fato é que “falamos a mesma língua” apesar das diferenças em estilo, do credo, dos gostos, da história de vida. Acredito que gente que gosta de gente sempre encontra um meio de se irmanarem, compartilhar a mesma ceia. Amigo é alguém com quem você tira máscaras e disfarces e revela sua pequenez e suas fraquezas, sua face, compartilha problemas e confessa outros pecados. Mas amigo não é padre para confessar seus deslizes, mas alguém de confiança para segredar aflições. E mesmo que o amigo não tenha uma solução para o nosso impasse de vida, ele pelo menos nos ouve, aconselha se puder e está sempre desejando-nos o melhor. Amigo não tem a mão cheia de ouro para nos ofertar,pois sua riqueza é outra, é saber lidar com o ser humano, é ter empatia. Confesso ter poucos amigos e uns conhecidos. Se estão longe ou perto, para mim não importa, pois se em emails ou em bate papos online faço contato, procuro dar a eles a qualidade verdadeira e exata para essa comunicação. Também sou um desses que às vezes perdem quase um dia inteiro lendo notícias na internet ou buscando informações outras e deixa o tempo passar quando podia estar dando boas risadas com quem lhe quer bem. “...amigo é coisa pra se guardar no lado esquerdo do peito mesmo que o tempo e a distância digao não...”. Pois é, quem nunca teve um amigo que mora longe, numa outra cidade, num outro estado ou país? Para esses amigos parece que o tempo congelou, nossas boas memórias e lembranças ficaram enquadradas como uma foto num porta-retrato antigo. Que tempo é esse que na ampulheta da vida conta-se diferente? Não saberia dizer, não poderia explicar porque nem eu mesmo entendo como certas amizades se perdem ao longo do caminho. Uma relação a dois e de amizade também vive das discordâncias e daquelas briguinhas tolas, mas sobrevive. Como tudo que veio para ficar, perdurar, sem ficar cheirando a naftalina, sem mofar ou perder o brilho próprio.

“...amigo é coisa pra se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração..”. Amizade pode ser possessiva, daninha, e só com muita conversa e o espaço devido às individualidades é que o amigo de verdade se alegra pelo fato de você ter outros amigos como ele. Há sempre tempo e lugar quando o coração é grande e os braços longos o suficiente para aquele abraço de irmão. Diamante bruto isso é a amizade, à espera de ser lapidada.

Sem medo de parecer piegas, escrevo meu texto como quem se define, sem medo das críticas, pois elas estão sempre à espreitar em cada esquina. Outro veneno para a amizade é a fofoca, a dissimulação, a manipulação dos fatos e acontecimentos. Quem se diz amigo não dá ouvidos à maldade alheia, rebusca o que há de mais concreto e tira tudo à limpo, só depois de muito meditar, colocando-se no lugar do outro é que tece uma opinião e toma partido. Isso não quer dizer que um amigo não seja imparcial, ao contrário, ele possue suas convicções e seu caráter para saber o que lhe convém. Imagine agora que estejamos em diferentes margens do mesmo rio e há uma ponte que nos separa, cruzá-la depende da decisão amadurecida, do tempo madurado, dos sentimentos enriquecidos no peito. Se em meio às incertezas da vida, a sua certeza agora faz-lhe ir adiante, então é hora de cruzar essa ponte e encontrar ou reencontrar o amigo ou a si mesmo. O ser humano pode ser simples ou complicado; esse é mais um dos mistérios de estar vivo e em mutação. Há sempre espaço para melhorar algo em nós mesmos.

No vazio de um mundo que envelhece, a solidão acompanhada nos amedronta. Numa manhã fria de inverno, talvez numa véspera de Natal, longe da família, dos irmãos ou irmãs, parentes. Você folheia nomes no caderno de telefone, tenta contactá-los em vão e parece que todos estão ou viajando ou com suas agendas cheias. A única coisa que lhe esquenta a alma é o café ou um chá revigorante. Um filme antigo na tevê lembra-lhe de tempos outros onde inocência e juventude andavam acompanhas e hoje parece que só resta um personagem sozinho no sofá da sala. Imagine agora um outro cenário: você está no meio de uma festa de fim de ano onde fogos, bebidas, risos, olhares, abraços, flertes giram num redemoinho de coisas e nada disso importa pois sente-se só, realmente só na multidão de rostos sem uma única face verdadeira. São dois momentos que se resumem num só: vazio em nós mesmos, perdas e buscas, desencontros, desvios e escolhas.

Amizade é alegre quando não se fragmenta com os anos e mentiras, mesquinharias. Ela também pode ser triste quando perdemos a esperança de ter aquele amigo sincero e irmão. Desapontamento, decepções são parte do amadurecimento. O tempo é o remédio que cura certas cicatrizes e dores, torna-se um rio de águas mais profundas. Ele lava, leva e traz alegrias e descontentamentos. Poetas e escritores muitas vezes interrogaram-no na esperança de conter a vida e seus enigmas e ele indicou-lhes um horizonte mais amplo, cada vez mais distante e indefinito.

Agora sopram os ventos, talvez das mudanças, ou quem sabe um novo temporal nos aguarde. Sopra também a brisa mansa que quer apaziguar temores, que fala de reconciliações: talvez a minha e a sua. Uivando esse mesmo vento desata correntes e alcança ares superiores, mais puros, mas libertos. O que cativamos precisa ser livre para que volte para nós quando estiver pronto.

Pessoal, o  Bira Malta é um grande amigo nosso já há muitos anos...Ele mora na Holanda e escreve crônicas maravilhosas. Essa foi me enviada esse final de semana e eu a escolhi pra começarmos bem a semana.  Bira, obrigada por me permitir colocar aqui no meu blog esse texto tão verdadeiro e que fala profundamente aos nossos corações....
Beijos a todos e linda semana....

7 comentários:

Danny disse...

Oi flor, digo sempre que amigos devem ser cultivados e eu faço questão de cultivar direitinho meus amigos, estou sempre ligando, mandando e-mails, visitando e quando sou convidada nunca falto com eles, acho que deve ser por isso que tenho amigas de quando era criança.
Amo fazer amizades e quero que a minha filha também seja assim, é muito triste pessoas sem amigos!
Bjs!

Juliana Pires disse...

Gostei muito dessa crônica. Amigo é sagrado, a amizade é como um jardim que a gente rega e cuida com o maior carinho, é triste não ter amigos, pois eles são nosso descanso, noss alicerce para passar por tantas dificuldades na vida.

Beijos

marliborges disse...

Olá, parabéns pela escolha do texto, excelente. Amigo é coisa muito séria e temos que cultivar mesmo como uma plantinha. É isso aí.
Beijão

Olavo disse...

Colegas tenho demais..amigos poucos acho raro hj em dia..
mas satisfeito com os que tenho.
Beijos

Luma Rosa disse...

Seu amigo é ótimo!! Legal que tenha dividido ele um pouquinho com nós e bem que ele poderia ter um blogue, né? Postaria as crônicas e pessoas além de seus amigos poderiam ler, se enriquecerem espiritualmente... já falou sobre isto com ele? Beijus,

Miguel...Presente de Deus disse...

Otima crônica. Eu gostaria muito de ter amigos assim,eu tinha duas amigas inseparaveis,mas infelizmente uma tá morando junto de Deus agora e a outra me decepcionou muito,não considero mais amiga e sim colega.
Mas as vezes faz muita falta uma amizade verdadeira.
Beijão enorme
Carla e Miguel

biramalta disse...

Oi Luma Rosa e outros leitores, agradeço pelos comentários à respeito da minha crônica e convido a todos a visitarem o meu web blog com mais crônicas e dicas sobre a vida na Holanda e outros países europeus: www.biramalta.com